quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ser mãe!

Sempre achei que seria mãe – de três, e das boas! Era uma convicção muito sincera que, com o tempo, passei a encarar como fantasia. Virou sonho com o namorado na faculdade, cultivado com cuidado (contraceptivo, inclusive), à espera do momento certo. Depois de sete anos, acordei sozinha...
Quatro anos e dois namoros depois, comecei a namorar o Zé, com quem finalmente superei meu chamado “namoro de referência”. Eu precisava me sentir mais envolvida e mais amada do que os namoros anteriores para acreditar que o relacionamento valesse a pena. Não vou me alongar com nossa história – que é linda e merece ser registrada, mas aqui, quero falar sobre ser mãe.
Eu tinha me perdido dessa idéia por um tempo. Meus planos se voltaram para o lado profissional, perseguindo estabilidade e autonomia financeira – pré-requisitos para pensar em construir família. Durante os anos de bolsista profissional, a instabilidade e baixo valor da bolsa foram justificativas razoáveis para adiar a maternidade. Dificuldades de voltar a viver com meus pais, após seis anos de vida em república, me motivavam a sair, mas não havia a menor condição de montar um “apertamento” para mim. Além disso, eu sabia que se saísse para morar sozinha, teria muito mais dificuldade de dividir minha vida com alguém. Sou territorialista e estava bem cética quanto à perspectiva de um novo relacionamento.
Meu namoro com o Zé começou quando fui contemplada com a bolsa de doutorado. Um ano depois, o convívio com minha mãe se tornou difícil e comecei a procurar quarto para alugar. Foi quando o Zé propôs que procurássemos um lugar para morarmos juntos. E assim fomos.
A vida de casal tem sido tão boa e feliz, acabei o doutorado e, no ano seguinte, abriu processo seletivo para professor na EACH. Prestei, passei e, em 2007 comecei oficialmente a vida profissional. E pude testemunhar: isso levou a um baby boom na escola! A produtividade de bebês era altíssima, vários colegas tendo o tão sonhado filho.
Nisso, várias amigas anunciavam seus rebentos ou algumas já os tinham bem grandinhos. Outras, convictas e tentando. E eu?...sinceramente, não sentia soar alarme de relógio biológico, nem necessidade de ser mãe.
Conversar com o Zé só piorava: ele não queria ser pai. Achava que tinha passado da época, dizia que gostava da nossa vida como estava. Era verdade – eu também pensava que teria tido antes; também gostava de nossa vida como estava. A idéia de ser mãe passou a me assustar: todo dia, o dia todo, a vida toda? Revisava o quanto foi sacrificante para minha mãe, constatava a impossibilidade de eu ser mãe nos moldes que ela foi (integralmente dedicada aos filhos), testemunhava casamentos que se acabavam com filhos ainda pequenos...
A idéia de mudanças na estrutura da nossa vida também me assustava. Seria possível ser melhor do que era?
A única certeza que os aventurados nos davam era: filhos mudam a vida. Ninguém dizia: filhos melhoram a vida. Alguns tentavam explicar (fico imaginando que cara eu fazia para receber explicações sem solicitá-las): dá muito trabalho, mas traz recompensas.
Outras dúvidas surgiram: não tenho vontade agora, mas e se depois eu quiser e não puder mais? O que leva as pessoas a terem filhos? – para essa pergunta, ouvi respostas nada convincentes: para não ficar só ou ter quem cuide de você na velhice; porque casais têm filhos; porque chega uma hora que falta algo na vida do casal; para fazer companhia...
Sempre fui intensa em meus sentimentos e sensações, mas logo em seguida, eu os processo num filtro racional: meço e peso, pondero, situo e projeto na minha vida (não se trata de necessidade, mas um mecanismo automático para mim). Estava difícil resgatar aquela convicção espontânea e original de que seria mãe (e das boas!). O filtro de anos precisava ser limpo.
Passei a me policiar: será que nego alguma vontade por saber que o Zé não quer? Essa conversa eu tive abertamente com ele e combinamos que se eu tivesse vontade, conversaríamos novamente sobre isso.
Passei a notar: ele brinca com crianças de um jeito... certamente seria um bom pai.
Decidi e comuniquei: vou parar de tomar pílula. Preciso sentir meus hormônios.
Foi o nível máximo de decisão em direção a uma gravidez. Na comemoração do aniversário do Zé, recapitulo a cena, embora não me lembre exatamente o dia, e lembro de ter me perguntado se deveríamos ter usado camisinha. Como havia menstruado na semana anterior, estimei que o período fértil estava por vir e pensei despreocupadamente, “se engravidar, terá sido com muito amor e prazer”.
Início de abril, TPM – peito dolorido, intestino preguiçoso. Começou a descer (“ah, não foi desta vez”, com um sentimento que não era alívio nem frustração). E depois, parou! E agora, Zé? “Agora, vamos fazer o teste e confirmar” – com uma tranqüilidade que me deixou insegura. Confirmamos e ele continuou tranqüilo. Eu fiquei sem chão e sem luz por 24h – não conseguia processar qualquer sentimento ou sensação. Depois, fato consumado, calendário consultado, Zé ao meu lado, me rendi às sensações e sentimentos: estou mãe; o que pensava sobre ser mãe era fantasia. Estar mãe tornou as preocupações das 24 horas iniciais pequenas e inofensivas – trabalho, problemas, planos de comprar casa, projetos de pesquisa – tudo ficou em outro plano. Fui inundada por uma paz indescritível que tem me mantido muito tranqüila à espera de continuar com o capítulo “ser mãe” – com o Fernando Akira nos braços.
Helene

2 comentários:

  1. Lindo, amiga. Emocionante, como sempre. Feliz é o Fernando Akira, pelos pais amorosos e dedicados que já tem. (pensamentos "tudibom" da "tia" aqui)

    ResponderExcluir
  2. Nossa! Fiquei até arrepiada!!! Muito lindo! Tenho certeza de que você será uma ótima mamãe!!!Um dia quero ter essa sensação!!

    ResponderExcluir